segunda-feira, 21 de abril de 2008

Música, memórias, melancolia


Com um maço fino de informações impressas e uma câmera fotográfica nas mãos, o escritor Michael Ondaatje percorria as ruas referidas no texto que carregava. As mesmas esquinas que ele tinha descrito, a rua larga e silenciosa, as casas de paredes desbotadas pelo sol. Uns setenta anos antes de o autor fazer aquele percurso, tinha vivido ali o menos famoso entre os inventores do jazz. A história dele prendeu a atenção de Ondaatje quando este descobriu que o músico Buddy Bolden “se tornou uma lenda quando enlouqueceu durante um desfile”.

Dessa cena, contada no livro Buddy Bolden’s Blues, de Michael Ondaatje, não é possível saber precisamente o quanto é relato verdadeiro e o que está ali como parte do encanto da narração. E essa impressão acompanha o leitor ao longo de todo o livro – que é romance, não biografia. Michael deve ter andado por aqueles caminhos uma série de vezes, para sentir o que restava da atmosfera da Nova Orleans do começo do século XX, a fim de descrever tal ambiente em sua obra com a maior fidelidade possível à sua importância na história do jazz.


“Quando ele enlouqueceu tinha a mesma idade que tenho agora”. Quem enlouqueceu foi Charles “Buddy” Bolden, tocador de cornetim numa banda de blues e editor de um pequeno jornal de escândalos, que ganhava a vida como barbeiro. Ele fascinava pelo seu jeito de fazer música: tocava “de ouvido”, improvisava, levava a platéia no clima contagiante que sabia criar. Foi um dos primeiros a misturar blues com hinos de igreja, mas infelizmente não há qualquer gravação de Bolden tocando. Entre 1900 e 1907 ele e sua banda foram considerados os melhores de Nova Orleans. A vida comum de homem casado, com dois filhos, era perturbada pelo álcool e pelos hábitos estranhos de Buddy. Até que, em abril de 1907, tocando com a Henry Allen’s Brass Band num desfile pelo subúrbio de Storyville, ele enlouqueceu. Internado aos 31 anos, viveu num asilo psiquiátrico até morrer, em 1931, aos 54 anos. Quem se inspirou na biografia incomum e cheia de lacunas do músico foi Michael Ondaatje, escritor de ficção, poesia e memórias; autor de O Paciente Inglês (livro transformado em filme em 1996 pelo diretor Anthony Minghella, recebendo o Oscar de melhor filme em 1997). Nascido em 1943, no Sri Lanka, tornou-se cidadão canadense em 1962, onde mora atualmente. Premiado internacionalmente, tem cerca de 27 obras publicadas, escritas entre 1967 e 2007. Buddy Bolden’s Blues foi lançado em 1976, com o título original de Coming through slaughter (“Vindo através de um massacre”, numa tradução livre). O título Buddy Bolden’s Blues foi sugerido pelo próprio Ondaatje para o lançamento em outros países.

A história é contada de maneira muito particular. Tanto pelo estilo não-linear do autor como pela influência do ritmo do jazz, a música que envolve todo o universo de Bolden. Vozes diferentes dividem a narrativa; o narrador, o autor, o protagonista, documentos históricos, personagens reais e fictícios. Essas variações formam uma composição singular, com cenas e descrições fortes; em um movimento ora sutil, ora bruto. Os diálogos pedem leitura mais atenta: não se tem indicação clara de quem fala, se o discurso é direto ou indireto, se é pensamento ou voz audível.
Ondaatje pretendia “pensar com o cérebro e o corpo” de Bolden para bem contar a vida do músico em seus últimos meses de sanidade. Em Buddy Bolden’s Blues, revela-se o talento do autor para preencher a falta de informações biográficas precisas com a imaginação sensível de um romancista que utiliza a poesia e a criatividade para enriquecer a obra. Como Buddy Bolden, que tirava notas vigorosas do ar, soprando-o pelo cornetim, e deixou marca do seu estilo na história do jazz.

O tradutor e a editora

Esta edição de Buddy Bolden’s Blues tem tradução de Paulo Henriques Britto; poeta, contista, tradutor de poesia e prosa e professor de Estudos da Tradução. Dentre os 86 livros que já traduziu, alguns dos autores são Jack Kerouac, Sylvia Plath, Virginia Woolf, Sigmund Freud e Lord Byron. Uma de suas traduções mais famosas é O guia do mochileiro das galáxias, de Douglas Adams (com Carlos Irineu da Costa). A editora Companhia das Letras publicou, além de Buddy Bolden's Blues, outras obras de Michael Ondaatje: Bandeiras Pálidas e O Paciente Inglês.


Buddy Bolden's Blues (Coming through slaughter, no original), de Michael Ondaatje em tradução de Paulo Henriques Britto. Editora Companhia das Letras, 176 páginas. R$ 38,50 (preço da editora).

sábado, 19 de abril de 2008

Notas melancólicas - parte 16


Não me lembro exatamente, mas a minha primeira experiência melancólica na literatura foi com o Augusto dos Anjos e eu não devia ter mais do que 15 anos de idade. A obra do poeta paraibano foi um dos marcos da minha juventude, evidenciando-me a precoce melancolia. O pessimismo tétrico do escritor enchia minha pobre alma de medo e desesperança. Aos 15, o que me interessava realmente era decadência; eu buscava uma espécie de ruína existencial. Eu era um adorador de sarjetas, e Augusto dos Anjos era a minha conexão com a morte, com o sujo. Meu único objetivo era o fim, e Augusto era o meio.

Entretanto, para muito além de todo o vocabulário cientificista empregado nos poemas, o que mais me cativava o espírito era mesmo a biografia do poeta. É aquela coisa: quando se tem 15 anos de idade, é-se facilmente impressionável, e eu não saberia aqui mensurar o impacto que tive ao ler os poemas e, logo depois, descobrir que o autor havia morrido precocemente. De imediato, minha mente juvenil e pessimista vislumbrou a conexão entre a morte prematura de Augusto e seus poemas que versam sobre a morte. E isso me bastava: ali estava meu ídolo. Um homem com uma trágica biografia escrevendo sobre as coisas funestas da vida.

Por esses dias andei relendo o Eu e Outras Poesias* e constatei que os poemas nem o homem que os lê são mais os mesmos. A impressão profunda deixada outrora não mais me acometeu. O terremoto moral e existencial ocasionados pela leitura dos poemas não se deu, como antigamente. Claro, Augusto dos Anjos sempre será um dos nossos melhores poetas. A beleza dos escritos, a riqueza dos versos clássicos, a precisão científica, as imagens vigorosas construídas pelos vocábulos, o pessimismo dramático, a retórica bem organizada, a força do asco e da morte valorizados em versos plenos de emoção e vivacidade, tudo isso me faz ter a certeza que Augusto dos Anjos é um grande poeta da Língua Portuguesa, hoje e sempre.

Se já não tenho aquele pessimismo estéril da juventude, restou-me a resignação de um envelhecimento que se aproxima; uma serenidade à vista. De Augusto dos Anjos, desejo mais do que a morte pura e simples – escolho a honestidade, a finura e a beleza de seus versos.

Versos como os que se seguem, comoventes até a raiz da alma, escritos para o filho morto logo após o parto. Impossível lê-lo incólume, Augusto dos Anjos nos revela a honestidade dos sentimentos, enquanto nos destila uma dose cavalar de verdadeira amargura dramática.

Soneto

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?

Porcão de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!

Ah, possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!

* Eu e Outras Poesias é uma coletânea de poemas de Augusto dos Anjos publicado em 1912 e escritos entre 1901 e 1910, ou seja, entre os 17 e 24 anos de idade do autor. Talvez isso seja o fato mais assombroso quando se lê a história de vida de Augusto: com tão pouca idade, foi capaz de escrever sonetos eternos e cravar o nome como grande poeta da literatura brasileira. Augusto dos Anjos morreria em 1914 de pneumonia, na cidade de Leopoldina (MG), apenas dois anos após o lançamento do livro.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Passados 40 anos do Maio de 68, ainda há muito a se desmitificar. Que o movimento político e cultural da década de 60 levou a uma maior abertura da sociedade beneficiando mulheres, imigrantes, etc, isso não me parece restar dúvidas. Todavia, dado o distanciamento histórico, torna-se necessário reconhecer também que algumas idéias marxistas defendidas pelo movimento se mostraram como criminosas. Celebrada mundialmente pelos partidários da revolução socialista, a data também deveria servir de alerta para se denunciar os totalitarismos cometidos pela própria esquerda, em regimes tão piores quanto os da direita.

A liberdade defendida pelos que veneram os acontecimentos de Maio de 68 é sumariamente desprezada quando lembramos que Stálin, Hugo Chávez e Fidel Castro (e outros mais camaradas da esquerda) dominaram ou dominam seus países através de políticas populistas, militaristas e, até, reacionárias. Faz-se urgente a desmistificação da ideologia marxista que manchou de vermelho a liberdade pretendida.

Alguns elementos dessa turma ainda falam em “desvio” do socialismo quando indagados sobre os crimes contra os direitos humanos levados a cabo pelo totalitarismo socialista. É preciso que a esquerda busque dar o que sempre prometeu e nunca cumpriu: a liberdade.

Morte além do ofício

A notícia percorreu o Campus do Benfica como um calafrio: Ícaro de Sousa Moreira, reitor da UFC, havia sido encontrado morto em sua casa, vítima de um ataque cardíaco fulminante na madrugada daquela mesma quinta-feira, 17. Mulher e filhos viajavam, não se sabe quem o encontrou. Conta-se que, na Reitoria, sua ausência causava estranhamento, que virou consternação por volta das 14h. Às 17h, a notícia de seu falecimento abria as portas das salas de aula do Centro de Humanidades 2.

Era surreal. Mesmo entre os que estavam há mais tempo na universidade, poucos haviam vivido uma morte de reitor. Assim, não existia um protocolo claro a seguir. Ninguém sabia se era apropriado contar piadas de oposição até contá-las - e ver que elas não se dissolviam na atmosfera do luto, como o óleo não se mistura à água. Mereceu o benefício da dúvida pensar em questões práticas, se os 3 dias de luto oficial eram contínuos ou não, se haveria aula, se a V Semana de Humanidades prosseguiria na terça-feira: a vida continua. Alguns comemoraram o falecimento do reitor, numa clara demonstração de cruel imaturidade. Outros o transformaram em homem santo, numa clara demonstração de hipocrisia.

Para mim, foi uma questão de humanidade. Antes de reitor, professor, pesquisador, Ícaro Moreira foi um ser humano, que construiu uma história única, constituiu família, atou laços de amizade. Neste momento, não importa o que penso de sua gestão, suas idéias, sua postura política. Importa me solidarizar com sua família e amigos, não pela posição que ocupava na universidade, mas pelo lugar que tinha nos afetos de cada um que com ele conviveu. A todos, meus sentimentos.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Da salutar troca de idéias


19 de setembro de 2003, Sala dos Estudantes, um dos auditórios da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. A partir de duas perguntas iniciais (neste debate da realidade econômica, política e social de nosso tempo, tomando por base o marxismo, qual função cabe ao Direito na sociedade? E no seu entendimento, quais as conseqüências de se pensar o Direito desta forma?), digladiaram-se o professor de Direito Alaor Caffé Alves e o filósofo Olavo de Carvalho, diante de uma audiência composta majoritariamente por jovens estudantes.

Tudo ia mais ou menos bem, até que lá pelas tantas...

ALAOR CAFFÉ ALVES: [...] Daqui a pouco vai se falar que a miséria é determinada pelos esquerdistas, pela esquerda…

OLAVO DE CARVALHO : E é, e é.

ALAOR CAFFÉ ALVES : … como está se fazendo colocando a questão de que o FMI é de esquerda, os EUA é de esquerda, Rockefeller é de esquerda etc. Isso é uma coisa maluca. É uma questão emocional muito grave…

OLAVO DE CARVALHO : Ora, o prof. Alaor tem a pretensão de diagnosticar os meus problemas emocionais. Dele, eu só diagnostico uma coisa: ignorância. Primeiro, ignorância dos escritos de Marx. Ele diz que a matéria é função da produção; Marx diz exatamente o contrário: Marx subscreve inteiramente as concepções atomísticas de Demócrito e aceita a ciência newtoniana como a tradução perfeita da realidade. Ademais, a idéia de uma dialética interna da matéria está exposta nos escritos do próprio Engels e faz parte da tradição do movimento comunista. Abolir tudo isso, dizendo que Marx só falou da produção é absolutamente ridículo, é coisa de ignorante, para não dizer mentiroso. Não o acuso de mentiroso mas o acuso de ignorante. Em segundo lugar, com um homem que chega para mim e diz por um lado que “ah, esse momento é da esquerda, a esquerda está com tudo” e, por outro lado, diz que não existe esquerda nenhuma, em algum ponto a coisa está falhando. Em terceiro lugar, o conselho de “esqueçamos a História, nada disto aconteceu, vamos tentar de novo, vamos confiar”, isso é uma palhaçada, isso é pueril. Não se pode aceitar uma discussão nessa base.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Bem, eu evidentemente não estava esperando essa agressividade. Essa foi demais.

OLAVO DE CARVALHO : Agressividade é a sua, que começa a falar em problemas emocionais.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Veja bem, tem de respeitar. Chamar a gente de ignorante, e pressupor que eu não conheça Marx…

OLAVO DE CARVALHO : Pressupor não: afirmo!

ALAOR CAFFÉ ALVES : ... e ele diz também que quatro décadas foi do Partido Comunista. Maluco isso! Nunca foi coisa nenhuma! Foi nada!

OLAVO DE CARVALHO : O quê? Está me acusando de mentiroso?

ALAOR CAFFÉ ALVES : O senhor me acusou de mentiroso aqui.

OLAVO DE CARVALHO : Não, eu te acusei de ignorante.

ALAOR CAFFÉ ALVES : [Palavras inaudíveis.]

[Tumulto.]

OLAVO DE CARVALHO : Você é que está mentindo.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Você é que me xingou!

OLAVO DE CARVALHO : Você é mentiroso! Safado!

ALAOR CAFFÉ ALVES : Ele vem aí com coisa [palavras inaudíveis] anti-socialista ou antimarxista e vem dizer que já foi, sabe, e conhece tão profundamente. Imagine que ele agora não é, porque ele analisou tão profundamente isso e está dizendo…

OLAVO DE CARVALHO : Pois foi exatamente isso que você nunca fez.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Ora, pelo amor de Deus!

OLAVO DE CARVALHO : Você é um idiota.

Alaor Caffé Alves : Olha aí! Quer dizer, eu estou falando ao mesmo tempo; agora, se você disser que eu sou idiota. Olhem, vocês me perdoem. Eu sou da Faculdade. Eu não vou permitir uma coisa dessa! Isso é uma agressão pessoal. Eu esperava…

OLAVO DE CARVALHO : Você me agrediu primeiro, falando de problemas emocionais.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Eu comecei muito bem, dei para vocês o mais possível a minha idéia a respeito de um conceito sobre Direito, sobre a questão que o Marx colocou; e a coisa foi num crescendo que eu não vou me admitir, vocês me perdoem.

[ALGUÉM DA PLATÉIA]
: Está fugindo?

ALAOR CAFFÉ ALVES : Estou fugindo. Vou fugir. Estou fugindo para respirar.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Do sangue derramado


Intensas repressões político-religiosas transbordam na história da humanidade. Perseguições e execuções cruéis acirraram intolerâncias e geraram inúmeras hostilidades, algumas perpetuadas até hoje. No meio desses conflitos todos, somente uma certeza: mortes aos borbotões.

Um dos episódios mais brutais envolvendo disputas político-religiosas foi, sem dúvida, o massacre do dia de São Bartolomeu em 1572, que teria enorme repercussão por vários séculos na Europa, e, por extensão, no mundo todo.

Chegando à França por volta de 1530, a Reforma de Calvino (teólogo francês, 1509-1564) teve considerável aceitação entre os camponeses e alguns religiosos franceses. País católico, os reis franceses, de início, mostraram-se tolerantes para com os protestantes (lá, conhecidos como huguenotes). Entretanto, com a expansão das igrejas reformistas pela França (a primeira delas foi fundada em 1555, em Paris), o governo real passa a perseguir agressivamente os protestantes, e muitos deles partem da França em busca de um novo lugar onde pudessem exercer livremente sua prática religiosa (no mesmo ano de 1555, por exemplo, um protestante francês, Villegagnon (1510-1571), fundou aqui no Brasil a França Antártica).

Rapidamente, o protestantismo espalha-se, mesmo de forma clandestina, e alcança, além de artesãos e comerciantes, algumas famílias de sangue nobre, como os Bourbon. Pastores eram formados na Suíça, país onde havia maior tolerância civil-religiosa, e enviados a Paris para auxiliar na formação de novos pastores franceses.

Durante esse meio tempo, começaram também os primeiros massacres contra os huguenotes, culminando com o fatídico dia de São Bartolomeu. Na noite do dia 24 de agosto de 1572, um domingo, as tropas reais sob o comando do rei católico Carlos IX (1550-1574) começaram uma prolongada orgia de saques e matanças a huguenotes em Paris, trucidando indiscriminadamente homens, mulheres e crianças protestantes. Os massacres logo se estenderam a outras cidades do interior da França, convertendo-se, no total, em aproximadamente 11 mil mortos*. Um verdadeiro banho de sangue. Algumas dessas pessoas foram mortas por simples suspeitas de terem aderido ao reformismo de Calvino. Famílias inteiras, que não tiveram tempo de escapar ante a brutalidade dos soldados reais, foram massacradas e suas casas foram queimadas com seus corpos dentro. Andou-se sobre cadáveres durante vários dias nas ruas de Paris. O cheiro dos corpos em putrefação permaneceu por vários meses na atmosfera da cidade.

Entre tréguas, hostilidades e guerras, as perseguições a huguenotes permaneceram firmes até 1685, quando milhares deles deixaram a França para viver em países com maior liberdade civil e religiosa, como Holanda, Inglaterra e Estados Unidos. Um triste capítulo no ruidoso livro dos derramamentos de sangue na história da humanidade.

*11 mil almas, alguém pode pensar, não são assim números tão expressivos. O trânsito brasileiro mata uma média de 30 mil pessoas ao ano. Entretanto, convém lembrar, essas 11 mil vítimas foram abatidas a golpes de espada, em uma época em que não existiam ainda as armas de destruição em massa. Estima-se que 70 mil protestantes foram assassinados até o final de 1572, a partir dos ataques de Paris.

terça-feira, 8 de abril de 2008

De inocências e revoluções


Não é me é nada agradável ler, hoje, a história das civilizações humanas. Lê-la seria bem mais divertido se o mundo não se mostrasse como um monótono e eterno teatro sangrento recheado de guerras, revoluções, genocídios, golpes militares, assassinatos de governantes, apropriação indevida do Estado por grupos movidos a interesses particulares e coisas do gênero.

A idade trouxe-me, além de certa maturidade e sabedoria, a verdade: não há nada de novo no front. Personagens de variadas épocas já tentaram por diversas vezes em inúmeros contextos sócio-político-histórico-cultural mudar essa trajetória humana repleta de guerras, revoluções, genocídios, golpes militares, assassinatos de governantes, apropriação indevida do Estado por grupos movidos a interesses particulares e coisas do gênero. Como procuraram isso? Através de mais guerras, revoluções, genocídios, golpes militares, assassinatos de governantes e coisas do gênero.

Definitivamente, já posso bocejar: o mundo me é um infinito mais do mesmo.

domingo, 6 de abril de 2008

Da pressa e dos livros


Na escola, os mestres se esforçavam para nos transmitir a idéia de que Dom João VI não passou de um glutão covarde e indeciso, que fugiu vergonhosamente das tropas francesas de Napoleão Bonaparte para a então colônia brasileira a fim de preservar a própria vida e a de sua corte opulenta. Um monarca a segurar gordurosas coxinhas de frango.

Não obstante tal situação vexatória, D. João VI trouxe consigo milhares de livros da Biblioteca Real de Portugal, livros estes que existem até hoje e se encontram sob os cuidados da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, configurando-se como um vivo patrimônio intelectual. Versam sobre matemática, astronomia, filosofia, história e outras áreas mais do saber humano acumulados em séculos de pesquisa, estudo e conhecimento.

Que tipo de homem, em meio ao caos generalizado proporcionado pelo embarque às pressas de quem foge do inimigo, destinaria tempo e espaço nos escassos e disputados navios disponíveis para alojar dezenas de caixas contendo alguns milhares de livros? Há quem pense que D. João VI trouxe os livros por um mero capricho pessoal. Uma insossa vontade do príncipe regente, acatada com desconfiança por seus súditos desesperados. Na verdade, sábio como ele só, D. João VI sabia que aqueles volumes abrigavam a maior riqueza da coroa portuguesa - a ciência construída ao longo de séculos por gerações de pensadores - e que deixar-lhes cair nas mãos de Napoleão seria talvez fato muito pior que legar-lhe um trono vazio (o que de fato se deu, já que Bonaparte não encontrou a mínima resistência para ocupar o território português).

Um homem que, mesmo sitiado pela aflição extrema do momento, lembrou-se de encaixotar e embarcar milhares de livros para o Brasil não pode ser um tolo fútil como nos faz crer a historiografia oficial. D. João VI sabia que pessoas morrem, são finitas, e livros, apesar das inúmeras tentativas de aniquilá-los, são imortais, eternos enquanto dure a ignorância humana.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

José de Alencar vai convulsionar na cova


Quem imagina que reuniões de departamento só servem para discutir burocracias como grade curricular, horários e concurso pra professor imaginou pela metade. Temas muito mais polêmicos entram constantemente na pauta de discussão. Na última reunião, por exemplo, foi decidido que vamos todos, de mala, cuia e estúdios novos, pra Casa de José de Alencar, lá na Messejana.

Isso mesmo: depois de 40 anos de luta, o curso de Comunicação Social resolveu se mudar para um lugar mais pacato e menos estridente. Os bixos de 2010.1 provavelmente já conhecerão seu novo retiro, junto à casa onde nasceu o autor de Iracema.

A história toda começou com o Reuni e um reitor muito a fim de reformar. 120 milhões de reais é a verba prometida, que será empregada na construção do Instituto de Cultura, Comunicação e Arte (ICCA) lá onde a musa dos lábios de mel banca a Natália Nara pra se banhar. Se fosse no Pici, seriam 60 milhões. E se fosse pra ficar no Benfica? Ah, no Benfica tá difícil... A Coordenadoria de Marketing e Comunicação, dizem as más (e astutas) línguas, precisa de uma nova casa também, e ela seria nosso velho prédio.

Prometem-se novas linhas de ônibus, pra não ficarmos assim tão isolados. Mas, com o Transfor de vento em popa, elas provavelmente só vão sair quando os jubilandos da tal turma de 2010.1 estiverem pra se formar. Como os estudantes vão fazer pra cursar cadeiras opcionais, ampliar seu repertório de línguas estrangeiras ou simplesmente estagiar nos equipamentos de comunicação da UFC ou na Praça da Imprensa é um mistério.

Achou tudo muito surreal? Você não está só. O Jornal Jabá está de volta pra mais uma aventura: descobrir qual é a do ICCA, seus prós e contras, o porquê de tantas reformas no atual prédio do departamento se há a perspectiva de breve mudança, e os motivos por que outros cursos, como o de Arquitetura, deram pra trás na empreitada. Se você também quer brincar de detetive, apareça hoje, às 17h30, nos bancos da cantina. A Comunicação precisa de você!

domingo, 23 de março de 2008

Notas melancólicas - parte 15


Nem todos os homens fizeram as coisas que ele fez.

Woody Guthrie nasceu em 14 de julho de 1912, no estado de Oklahoma, Estados Unidos. Ainda criança e incentivado pelo pai, um rústico fazendeiro de Okemah, aprendeu tocar ao violão músicas do Velho-Oeste norte-americano; velhas canções folk de cowboys e índios. O pai de Woody, Charles Edward Guthrie, também era homem metido com política (tratava-se de um democrata) e não foram poucas as vezes em que levou o pequeno Woody consigo para passeatas ou mesmo para acompanhar os seus próprios discursos políticos. A mãe de Woody, Nora Belle Sherman, também lhe cantava baladas folk para dormir, sendo ela própria uma entusiasta do gênero musical cantando em sua terra. O garoto Woody, desde o princípio, mostrou-se precoce e um tanto quanto incomum quando comparado aos de sua idade, pois, calado, era capaz de passar horas e horas em um canto, observando aguçadamente o mundo, as pessoas de sua terra, a paisagem que o cercava, e, principalmente, a música tocada e cantada por seus conterrâneos. As canções que ouvia de gente mais velha deixariam forte impressão no espírito do menino.

Durante a infância em Oklahoma, Woody experimentaria a primeira de uma série de enormes tragédias pessoais: a morte acidental da irmã mais velha, Clara, queimada em um terrível acidente com uma lamparina. Essa ocorrência funesta levou a desestruturação da família de Woody, agravada ainda por complicados problemas financeiros. Woody viu tudo isso do alto de seus sete anos de vida.

Em 1920, quando Woody contava então oito anos de idade, petróleo foi descoberto em Okemah, ocasionando um verdadeiro “boom petrolífero” na região. Milhares de trabalhadores foram para a cidade, que, de um dia para o outro, se viu repleta de homens com variados sotaques oriundos todos os cantos do país; jogadores de todas as estirpes e pequenos trapaceiros que buscavam obter vantagens com a situação chegaram aos borbotões, e ali perambularam durante um par de anos. A outrora pacífica e pequena cidade natal de Woody fervilhava agora de gente e isso, mais tarde, teria enorme influência na vida do menino. Entretanto, em poucos anos, os poços de petróleo secaram e Okemah sofreu uma severa reviravolta na economia, deixando a cidade e os habitantes arruinados. O clima eufórico proporcionado pelo ouro negro deixou agora, entre os que residiam no lugar, um enorme sentimento de vazio. Uma depressão econômica, social e psicológica na população.

Woody absorveu tudo isso de forma visceral, mesmo com tão pouca idade. As experiências vividas em Okemah contribuíram significativamente para que ele acentuasse o sentimento de estranheza diante do mundo e das pessoas, fazendo-o adotar uma visão mais abrangente dos outros e de se si próprio. Os viajantes que chegaram e saíram inspiraram o jovem Woody a também querer ver o que existia além dos limites da pequena Okemah. As músicas dos viajantes, as histórias interessantes que eles trouxeram no estojo do violão, os sotaques e costumes diferentes com que expressavam suas vidas e cantavam suas canções, tudo isso implantou no coração e na mente de Woody a necessidade de cair na estrada. E foi o que ele fez.

sábado, 22 de março de 2008

God's my friend


[Acima, Deus estendendo o braço, espécie de varinha de condão]


Era isso? Deus existe?

Nobody knows.

Queria muito saber se tem qualquer coisa me espreitando no quintal de casa. Às vezes acho que sim — que tem e pode ser mesmo ele. Ele tem algo mais útil a fazer? Duvido. Deus é um preguiçoso. E um pervertido. Aposto que é o tipo da coisa que ele adora fazer. Ver-nos sem ser visto. Atrás das moitas, voyeur.

De qualquer forma, não vejo graça nisso. Ao menos não desde os quatorze anos de idade, quando disse a mim mesmo: “Essa gente só pode estar brincando comigo”. Afinal, Deus é mais implausível do que a conquista do título brasileiro por algum dos clubes cearenses. Mais até do que o meu baile de formatura. Ou do que o aniversário de quinze anos de Anita, minha filha — esse é mesmo o nome dela?

Como o universo, Deus é um mistério. Eles vão ou vêm? Se expandem ou encolhem? Ninguém sabe, ninguém viu. E por que cargas d’água as pessoas acreditam nele? Acreditariam da mesma forma se ele não existisse e em seu lugar um saco de farinhas tivesse sido dependurado numa cruz? Acho provável.

Tenho uma camisa que julgo me trazer sorte. Gosto dela. Fiz as duas provas antes de entrar na faculdade trajando essa camisa. Ao final de um mês, fui conferir o resultado do vestibular: havia passado. A camisa era mesmo encantada.

A fé começa desse modo. Primeiro porque não sabemos quase nada sobre como as coisas começaram. Até podemos saber como começaram, mas não sabemos o que tinha antes de tudo ir pelos ares. Ou sabemos? Não sabemos. Por isso disse que a camisa ajudou. Porque preciso acreditar em qualquer coisa. Mas, a pergunta de um milhão: por que precisamos crer no transcendental, no inexplicável, no imponderável? Ou tudo é inexplicável, transcendental, imponderável?

A idéia de Deus está ligada à da arte. Ele só existe porque podemos inventá-lo. Tem o mesmo princípio ativo do teatro, da música, da novela, do romance, do cinema, do conto de fadas. É tão consistente quanto Ulisses e Macunaíma. Existe como existem Indiana Jones e Charles Brown. De fato, é bacana que exista. Não tenho nada contra isso. Apenas acho que as pessoas se levam muito a sério e acabam esquecendo que nada pode nos fazer acreditar, de modo racional, num... Num Deus! E que ele tem tudo pra ser uma... Ficção! Seria tão mais divertido acreditar sabendo que ele simplesmente não repousa acima das nuvens. Que nos vigia dia e noite. Que foi o responsável por tanta coisa.

Parênteses. Uma coisa sempre me impressionou nessa história toda de Deus — quem fora o responsável por sua criação? Porque tava na cara que ele, mesmo tão poderoso e divino, tinha vindo de algum lugar. E, nesse caso, mesmo a noção do nada era assustadora. Porque podia e pode conter muita coisa. Desse modo, toda a minha capacidade de crença religiosa foi ferida de morte.

Adoraria acreditar em Deus. Mesmo. Mas não acredito. Explicar a criação de tudo é uma questão de tempo. O grande nó é: por quê? Por que os bichinhos escolhidos fomos nós e não eles? Por que demoramos tanto tempo nos explodindo antes do final dos tempos?

Que merda, a única coisa que importa é o porquê das coisas.

Mais aqui. Leiam. É sempre divertido imaginar que algumas coisas têm sentido e podem explicar muito do que veremos um dia.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Se me perguntarem, direi: são cachorros


Um manifesto anti-guerra. Eis um bom rótulo para No vale das sombras (In the valley of Elah), de Paul Haggis (Crash - No limite), com Tommy Lee Jones, Susan Sarandon e Charlize Theron. O propósito do filme é mesmo questionar os resultados diretos e indiretos da investida liderada pelos Estados Unidos contra o Iraque, que completou, no último dia 20 de março, seis anos. E com um saldo aterrador: quase 200 mil iraquianos e cerca de 5 mil norte-americanos mortos. Baseado em fatos reais, o enredo, bastante simples, gira em torno do retorno de um batalhão de soldados à América. Logo na primeira semana em solo pátrio, Mike Deerfiel, filho de Hank (Tommy Lee Jones), ex-policial militar, desaparece, ensejando o início de uma via-crúcis que culmina de forma dramática e nos leva a pensar, mais uma vez, acerca do significado da “guerra pela democracia”.

É difícil dizer qualquer coisa sobre o filme sem revelar alguns dos seus segredos. Mas vou tentar. No vale das sombras é um bom filme, tem ótimas cenas, performances magnéticas e um roteiro bem-amarrado. Tommy Lee Jones foi indicado ao Oscar por sua atuação. De fato, o cara é fabuloso. É fantástico vê-lo percorrer os corredores da burocracia militar e policial à procura de informações sobre o filho. É gostoso vê-lo decepcionar-se com os despojos da guerra. Ele é frio e triste. É duro como convém ao reservista. Mas, aos poucos, essa dureza vai... Vai cedendo... Sim, vai se abrindo, lenta e dolorosa. O processo é mesmo custoso. Até inverter os pólos de suas crenças, virar o mundo de ponta-cabeça, não é exatamente um pulo. Mas, como outros tantos americanos que enviaram os seus meninos pra guerra, Hank finalmente chega lá.


O vale é sombrio

O título original — In the valley of Elah — é, pra variar, infinitamente mais informativo do que o genérico No vale das sombras. Ele remete ao campo de batalha onde se enfrentaram o gigante Golias e o pequeno Davi, personagens bíblicos. Pra história, isso faz toda a diferença. Porque Paul Haggis quer dizer exatamente isto: enviar os jovens soldados norte-americanos para o Iraque equivale ao disparate que foi para Davi ter de peitar Golias. É desigual, é injusto. E as conseqüências disso podem ser desastrosas.

No vale das sombras faz uma leitura psicológica do conflito no Iraque, que, à semelhança de outras guerras, produz monstros. Esses monstros voltam pra casa aparentemente imaculados, saudáveis, mas guardam seqüelas das atrocidades cometidas nos campos de batalha. De uma forma ou de outra, o tiro sai pela culatra, e os efeitos da guerra passam a ser sentidos também do lado de cá do conflito. Acho mesmo que esse é ponto central do filme de Haggis, que, por sinal, não chega a ser grande coisa (o mote, não o filme): a guerra transforma homens em monstros capazes de qualquer barbaridade. No caso de No vale das sombras, ficamos assustados mais pela proximidade do que nos é contado do que pela originalidade das imagens ou do tema. Afinal, estamos todos no século XXI e essas cenas, muito comuns em filmes sobre a II Guerra Mundial e o Vietnam, permanecem nos assombrando.

No vale das sombras tem, só agora percebo, uma justificativa. De fato... De fato... Parecemos estar todos mergulhados nas sombras. Não apenas os soldados que voltam da guerra. Acho que os dirigentes políticos e a sociedade que, em parte, aceita as bravatas de um presidente burro e intolerante e os motivos de um conflito desigual e bárbaro.

Os Magalhães

As disputas patrimoniais da família de Antônio Carlos Magalhães ganharam a mídia mal o senador se acomodou na cova. Desafetos cultivados há décadas, apelidos pouco carinhosos e a extinção do almoço de domingo tão prezado por ACM deixam os cochichos de sala-de-estar e, estridentes, ecoam por todo o país: é a filha casada com um empreiteiro mandando arrombar o apartamento da mãe, são os netos se juntando para derrotá-la, é a viúva levantando suspeitas de ocultar parte dos bens. O motivo? Não tanto a grana do defunto, mas parte da origem do seu poder: a concessão de TV que retransmite a Globo na Bahia, o jornal de circulação vistosa - os tentáculos da família sobre a grande mídia, enfim.

Por mais que seja a prole do ACM, ainda sinto pena. Que família não tem podres e rixas encubados, só esperando a crise da vez pra se manifestarem? Pode ser cruel, mas vale perguntar: será que, um dia, vamos presenciar algo semelhante aqui na terrinha, com os Jereissati? Pra quem não sabe (e pra quem sabe também, mas não lembra :P), o Sistema Jangadeiro de Comunicação é controlado pelo nosso "galegin dos zói azaul" e retransmite o SBT pela TV Jangadeiro, além de vincular-se à Globo pela NET. E o que muda, depois de disputas assim?

quinta-feira, 20 de março de 2008


Quando a mãe parou um pouco com a máquina de costura foi que eu notei um som bonito entrando pela sala. Em vez de barulhento, era harmônico e suave. Nada do que costuma tocar nas vizinhanças, o forró, brega ou funk habitual dos fins de semana na minha rua, uma rua esburacada e torta, fora dos limites da Perimetral.
Um violino? Saí pra saber de onde vinha a música. Duas casas à direita da minha, um violino emendava uma harmonia na seqüência seguinte, sem pausas, sem parar numa música só. Era a mesma casa onde eu escuto tocarem músicas que me agradam, desde que eu era criança, de onde nunca se ouviram forrós nem seus similares populares e barulhentos. Mas eu não tinha coragem de botar a cara na porta do vizinho - meu contato com eles fica no bom dia quando saio e boa noite quando eu chego. Não porque não goste das pessoas que dividem o quarteirão comigo e minha família; mas porque meu gênio é de ficar entocada em casa na maior parte do tempo. Sorte que a menina da casa do meio foi espiar e eu perguntei:
- É gravação ou é alguém tocando um instrumento?
- É um homem tocando aí na eletrônica.
Fiquei parada em pé na minha calçada, ouvindo.
A mãe veio lá de dentro e eu contei o que era. Ficamos olhando o movimento do fim da tarde. Os buracos feitos pelas obras da Cagece no asfalto que antes era bom, regular, agora cheio de armadilhas lamacentas para os carros. A gente lá se espantando do tamanho dos buracos e do tanto de água empoçada, até que reparamos nas imagens refletidas. Num deles, a mãe apontou:
- Olha ali, a lua.
Mas a gente nem tinha câmera pra tirar foto. Não faz mal, a gente viu.



*Foto da minha rua, à direita da minha casa, em maio de 2006.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Notas melancólicas - parte 14


Hoje de manhã um pássaro veio beijar-me a alma, tocando para mim o canto na janela do quarto. Num gesto nobre, saiu de seu recanto escondido, pousou-me no parapeito, endireitou o semblante e fez-me sonhar justamente no momento em que eu acordava. O som era puro e belo, indo ao encontro do que há de mais sublime na natureza divina. Um canto que beirava a devoção religiosa. Comovido, ajoelhei-me diante da ave e pus-me a rezar pelos meus amigos, irmãos e inimigos. Tal como se estivéssemos em uma procissão, o pássaro conduzia a cerimônia religiosa, entoando sua prece rogatória, enquanto eu, logo atrás, o seguia em uma fila imaginária, guiando meu espírito pelo som musical. No êxtase impetuoso, o canto do pássaro e a minha oração tonitruante uniram-se em uma só expressão, elevando-nos a mais lírica das melodias gregorianas. Unimo-nos até o gesto completo, quando eu me fiz de pássaro e o pássaro se fez de homem. Assim, fomos subindo o tom rítmico uníssono de nosso registro musical até o momento em que uma buzina de automóvel quebrou-nos a união, espantando a ave para longe, para onde eu não pudesse mais vê-la. Perdia-lhe, ali, talvez para todo o sempre. E a melancolia é o resto que me sobrou.