sábado, 9 de fevereiro de 2008

In-sólitas

Estou um bocado esquisito. É que ontem fui tocado pela face obscurantista do jornalismo. Ela tem um nome. Chamam-na clareza.

Não sei exatamente se estou convencido disso. De que essa é a grande doença da profissão. Talvez esteja, não sei.

Todos temos de ser claros, evitar ambigüidades, fazer uso de termos que não contenham arestas, passar ao largo de expressões que possam, ainda que suavemente, ferir as minorias, dizer tudo com o máximo de objetividade e de forma a que o maior número de analfabetos funcionais possa ler. É isso mesmo? Parece ser esse o grande norte do jornalismo, é por ele que nos guiamos, é na direção dele que nos ajoelhamos e entoamos as nossas preces, as nossas pragas. É onde fica a nossa Meca. Em nome dela, da desdita, sacrificamos nossos cordeiros e brindamos diariamente. Antes, obviamente, nos benzemos. A tal clareza nos governa, sim, e diz como devemos nos comportar textual e estilisticamente. Diz que roupa de baixo devemos usar e com que mulher ou homem podemos nos amancebar.

Sem querer topei com isso. Suspeito que sim, essas e outras coisas tenham surgido inesperadamente ainda ontem e que, ao vê-las, tomei um baita susto que logo se converteu em surto e disso ao colapso foi um pulo. Pois esse é mesmo o problema. Sou contra a clareza e a favor do insólito. Demônios em cada palavra e não cabritinhos saltitando contentes da sua brancura. Claro-escuro, penumbra, zonas não liberadas, incognoscibilidade. Pago pra ver e ouvir o incogitado e não o seu contrário.

Pois é assim que me sinto tendo que aceitar as regras e cruzar as pernas e cumprimentar com um aceno meio desconcertado as visitas que não foram convidadas, porque nunca as convidaria mesmo, e que resolveram duma hora pra outra aparecer — celestes, neutras e eternas. Fico envergonhado.

Não sei como os caras do new journalism conseguiam ajuntar as duas coisas. Se é que conseguiram mesmo. Elas parecem se estranhar, jornalismo e literatura são duas áreas na verdade alérgicas uma à outra. Ninguém me convence do contrário. Me fazem até pensar na relação que minha mãe tem com a mulher do meu tio. Qualquer tentativa de azeitar as coisas entre ambas é sempre frustrada por um sentimento de imiscibilidade que sempre surge e põe tudo nos seus devidos lugares. Diz “Do pescoço pra baixo é canela”, dá o cartão vermelho e vai embora.

E aí fico sem saber o que pensar. Digo e corro todos os riscos? Melhor correr os riscos por algo que se deseja mesmo, estou certo? Mas posso também ir até o salão de beleza ou agendar uma tarde no studio do shopping mais próximo e cortar os cabelos, unhas e barba, aparar os bigodes e depois borrifar fragrâncias no corpo inteiro e ficar apresentável. Meu dono pode tranqüilamente me levar a passear. Tenho como fazer isso. Mas devo? Posso corrigir as coisas, colocar os pingos nos “is” e tocar a vida como se nada tivesse acontecido. Largo tudo e vou criar galinhas? Me enveneno, me corto, me atiro do último andar de um edifício? Não sei. É difícil fazer escolhas quando não se tem mais cinco anos e tudo é tão claro.

Se você olhar demasiadamente para o fosso, ele devolverá o olhar — Nietzsche disso algo parecido com isso. Acredito que ele soubesse do que estava falando. Se insistimos com as coisas, elas se revelam. Ao menos parcialmente.

Não quero dizer que tenha encarado e me amedrontado com a face oculta do jornalismo. Acho que vi a minha própria. O resto é crise, é besteira. Ótimo final de sábado a todos.

Notas melancólicas - Parte 6


Será mesmo a morte um remédio para todos os males, um porto de inteira segurança? Será a morte melhor que uma vida amarga? Acordei-me no meio da noite com essas singulares dúvidas. Olho no relógio da cabeceira da cama: são quatro horas da madrugada; a pior hora para o insone, configurando-se cedo demais para acordar e tarde demais para se tentar dormir novamente. A insônia é um dos sintomas mais comum aos melancólicos; notívagos são geralmente pessoas deprimidas, pobres coitados condenados a sofrer noites e noites em claro.

Estirado no leito e sem dormir, miro a janela de meu quarto e um pedaço do céu ainda negro recai sobre mim. Escuto um ou outro veiculo passar na rua. Fecho os olhos na forma do velho costume dos que dormem e rumino se teria um motivo qualquer para contentar-me por coisa alguma. Andara particularmente mórbido nos últimos dias; os livros “a ler” jaziam sepultados na prateleira do quarto. Talvez fosse mesmo melhor ficar na cama.

Eu ainda não sabia exatamente que estava com o dia condenado quando o relógio deu cinco horas e os primeiros pássaros se fizeram ouvir. Desconfiava que tivesse um dia ruim pela frente, claro, mas ainda não obtivera toda a certeza disso. O bocado de céu que eu via pela janela já clareara, anunciando que o dia avançava. Nelson Rodrigues estava ao alcance de minha não, ao lado do relógio da cabeceira, mas eu não o conseguia ler por mais de cinco ou seis linhas. Não mais. Fizera os mais hercúleos esforços para prosseguir na leitura do Anjo Pornográfico, levando-o comigo para onde quer que fosse, mas, ainda assim, a coisa não se deu e o abandonei, juntamente com algumas anotações que rascunhara em algumas folhas soltas que agora voam indiscriminadamente pelo chão empoeirado do quarto.

Gastei bastante tempo olhando as folhas voarem de um lugar para o outro; embaixo da cama e junto à porta, folhas por toda parte. Pouco depois das dez horas da manhã, decido levantar-me; dia já claro e trânsito intenso na rua. Abri totalmente a janela e olhei para fora com alguma dificuldade inicial devido à claridade da luz, mas logo a vista pesava sobre o melancólico terreno baldio à frente do prédio. Sinto, de repente, uma enorme vontade de fumar, mas já ultrapassara a cota semanal de cigarros permitidos, de modo que nada mais poderia fazer a não ser deixar o tempo escoar devagarzinho. Um tempo cheio de dor.

Ligo a TV e vejo uns palestinos protestando contra os mais recentes ataques de Israel a uma escola na região da Faixa de Gaza, ou coisa que o valha. Morreram algumas crianças na investida militar, mas amanhã mesmo serão vingadas por algum grupo radical islâmico. Por livre associação de idéias, ocorre-me à mente que foram os autores árabes do século IX os responsáveis por estabelecer a correlação astrológica entre humores e planetas. O humor sangüíneo corresponderia a Júpiter; o colérico a Marte, deus da guerra; o fleumático a Vênus ou à Lua; a melancolia estaria sob signo de Saturno, planeta distante, de lenta evolução. Assim, a associação entre Saturno e melancolia foi inevitável. Até hoje o qualitativo “soturno”, corruptela de Saturno, é sinônimo de melancólico.

Mas nem sempre Saturno foi designado como o deus da melancolia. Na verdade, a versão dos povos árabes foi sendo construída paulatinamente ao longo de séculos de tradições milenares. Na versão grega, temos um Saturno como uma divindade contraditória, que tanto abençoava as colheitas como também devorava a carne humana. Já para os romanos, Saturno era exclusivamente ligado à semeadura. Havia até as Saturnálias, precursores do nosso Carnaval moderno, festas caracterizadas por libertinagens públicas promovidas pelos romanos para agradecer a Saturno pelas colheitas provenientes do ano anterior. Por fim, Saturno seria fundido, dentro do sincretismo greco-romano, em uma entidade responsável pela invenção da cunhagem de moedas; um Saturno mais “funcional”.

Desligo a TV, afinal, tenho coisas mais importantes a fazer, embora não saiba ainda exatamente como elas devem ser feitas ou se devem mesmo ser feitas. “Diabos, árabes e dúvidas demais me deixam ainda mais melancólico”, penso, constatando que meu dia ainda estava longe do fim.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O eterno galã


Há cerca de três semanas a revista Veja publicou uma coluna do Roberto Pompeu Toledo intitulada “Trajetória de um sessenta-e-oitão” na seção “Ensaio”, destinada ao citado jornalista. Eu a li no lugar em que me acostumei a ler a revista Veja, ou seja, em sala de espera de consultório médico. O fato é que, mesmo não acompanhando regularmente a revista nem muito menos as colunas de Toledo, achei o escrito de assaz pertinência e de uma lucidez maravilhosa, tanto que as palavras do colunista não mais me saíram da mente por dois ou três dias.

O texto fala de uma figura emblemática, o famigerado José Dirceu. Na verdade, trata-se mais de uma narração do longo caminho trilhado por Dirceu, das lutas de 68 ao envolvimento com o Mensalão, até o estágio atual na qual Dirceu luta contra o Inexorável: a velhice. Na linha de frente do combate, uma operação de implante de cabelos. Se em 68 o cabeludo e elegante Dirceu lutava contra os carecas conservadores instaurados no regime militar, hoje, vejam que prosaico, o não menos elegante Dirceu luta para não se transformar em um calvo homem de negócios. Ele quer ser, agora, apenas um homem de negócios. Com cabelos.

E mais. Agora como consultor (leitores do mundo globalizado, por favor, explicai a esse pobre rapaz de cor o que diabos vêm a ser propriamente um “consultor”), Dirceu está “in”, almoçando com homens ricos e fazendo negócios com milionários do ramo da indústria e mídia corporativa. E mais ainda. Dirceu, penso que nem em meus sonhos mais psicodélicos e sessentistas eu poderia imaginar tal heresia, é, no presente, leitor de um dos maiores defensores do Capitalismo mundial, o ex-presidente do Fed, o banco central dos Estados Unidos (e, por extensão, o banco central do mundo), Alan Greenspan. Realmente, entramos em uma era de turbulência.

Toledo resume bem a peregrinação do ex-homem forte do Governo Lula. “Eis o sessenta-e-oitão (referência criada pelos franceses para designar as pessoas que viveram com intensidade o ano de 1968), confrontado com a esperança e a realidade destes últimos quarenta anos, a revolução em que um dia pôs tanta fé e a queda do Muro de Berlim, o sol da liberdade que despontou com o fim da ditadura e a mesquinha política do é-dando-que-se-recebe da etapa seguinte, a conquista do poder e o subseqüente encontro marcado com a corrupção, o auge do prestígio e seu esboroamento nos xingamentos de ‘safado’(aqui, Toledo faz uma referência aos insultos dirigidos a Dirceu quando este põe o pé em qualquer rua brasileira) ”.

Obviamente, Dirceu não foi o único sessenta-e-oitão a experimentar o céu e o inferno, mas, sem dúvida, o homem se trata de um dos mais significativos símbolos da derrota dos ideais esquerdistas. O idealismo do jovem Dirceu parece ter sido substituído pelo pragmatismo do homem calculista de terceira idade que passa apressado pelos pátios dos mais diversos aeroportos mundo afora. Sabe como é, essas viagens de negócios são cansativas, há o problema com o fuso horário, a comida que, por vezes, não desce bem, enfim, situações cotidianas do business men.

O “Alain Delon dos pobres”, agora, virou palpiteiro dos ricos, mas o que importa é que o charme, ah meus camaradas, este continua impecável. Com uns milhares de fiozinhos de cabelos a mais, então, Dirceu praticamente retorna às origens galãs. Aos 62 anos de idade, o mensaleiro ganha fortunas dando dicas de aplicação do dinheiro alheio. De repente, a porta do consultório escancara-se e de lá sai uma bonita médica a perguntar angelicamente para a sala. “O senhor Rodolfo Oliveira?” Levantei-me desconfiado de que pudesse estar um pouco mais calvo naquele dia...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Notas melancólicas - Parte 5


Amor e ódio. Dois substantivos historicamente embalados por canções de diversos estilos. O ódio talvez seja apenas um sentimento não-compreendido do próprio amor. O ódio talvez seja o que se herda de um grande amor. Talvez, o poeta canadense Leornad Cohen (1934) já soubesse disso tudo quando lançou o disco Songs of Love and Hate, em 1971. E, senhores, se há um disco que me deixa obscuro, é esse do Cohen.

Considero pela crítica como um dos melhores trabalhos do poeta, Songs of Love and Hate é intenso como um grande amor e ao mesmo tempo triste como a rancor adquirido por um fim de um grande amor. O álbum é foda, meus senhores. Há cerca de um ano, um grande amor me deixou, e o que me salvou muitas vezes da loucura pura e aplicada, em momentos de picos de desespero, foi o disco do Cohen, versado justamente sobre... Amor.

Nas oito canções que compõe o disco, Cohen abrange o amor em múltiplas formas; o amor psicológico, o amor emocional, o amor espiritual, o amor desprezado, tudo embasado por uma dose do mais melancólico veneno, destilado por alguém que conhece realmente a dor provada pela relação amor-ódio. Cohen compõe músicas com visceral conhecimento de causa.

Ademais, o som do álbum é limpo e despojado e, na época de seu lançamento, Cohen já era reconhecido como um dos maiores compositores de seu tempo, atrás apenas do norte-americano Bob Dylan. E Cohen soube construir sua fama de enigmático, o que o tornava ainda mais fascinante para o público que o acompanhava. E acompanha até hoje, pois o bardo canadense, aos 74 anos, continua encantando os fãs em turnês mundiais. A criatividade e a profundidade da música de Cohen mantiveram o público próximo a ele durante mais de quatro décadas a fio, período marcado por altos e baixos, é verdade, mas nunca baixo o suficiente para ser considerado medíocre.

Mas eu gostaria voltar um pouco ao disco citado. Comparando o desempenho vocal do músico com os dos dois discos anteriores (Songs of Leonard Cohen e Songs From a Room, respectivamente de 1967 e 1969), percebe-se claramente uma evolução extraordinária. Acima de qualquer expectativa, Cohen entoa suas melancólicas canções de forma impecável, tornando o disco uma espécie de ponto de equilíbrio na carreira do compositor. Além disso, Cohen atingiu no disco a maturidade como instrumentista e as melodias ao violão alcançaram o ápice de sofisticação, apesar da simplicidade utilizada para a produção do álbum. A voz e o violão de Cohen dominam o disco, guiando-nos às histórias melancólicas escritas pelo poeta.

A intervenção dos demais músicos no disco é feita de maneira inteligente e ponderada, deixando o caminho livre para que ressoe toda a capacidade musical de Cohen. Os arranjos bem trabalhados capturaram Cohen em um dos momentos mais brilhantes do compositor, tornando o Songs of Love and Hate um primor para os amantes da música melancólica. Poucas obras conseguiram chegar tão próximo a essência da melancólica quanto Songs of Love and Hate, disco que recomendo a todos que quiserem chorar inteligentemente um grande amor. Ou um grande ódio. Songs of Love and Hate é digno de uma nota melancolia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Brasil, o país dos descaídos

Good afternoon a todos. Bom, a arquibancada caiu. Trote ou incompetência? As coisas costumam cair neste país, principalmente arquibancadas. Porque somos mais espectadores que participantes? Porque lotamos estádios e nos preocupamos tão pouco com a infra-estrutura deles? Talvez. A prefeita disse que a multidão estava quieta ou qualquer coisa parecida. Que não se tinha agitado tanto assim. Mas as tábuas sobrepostas foram abaixo, certo? Foi o que todos vimos nos jornais.

O que vou dizer não tem, obviamente, qualquer importância. Menos pelo seu conteúdo do que pelo emissor da mensagem. Digo, são impressões de quem desconhece a ciência que preside a montagem de estruturas para shows e espetáculos aqui e em qualquer parte do globo. Por outro lado, são duas ou três palavras que vêm a propósito de detalhes que, dias antes do carnaval, me incomodaram. Explico.

Pude acompanhar, ao longo da semana que antecedeu as apresentações de maracatus etc. na avenida Domingos Olímpio, a montagem da geringonça que veio abaixo na segunda-feira, 4. Não é que estivesse lá, fiscalizando o trabalho da empresa responsável pela obra. Minha vigilância no que diz respeito ao carnaval de Fortaleza se limitou aos dez minutos de engarrafamento que o Conjunto Ceará-Aldeota enfrentou diariamente até a sexta-feira, 1º. O preparo da estrutura acabou reduzindo o espaço de trânsito na avenida, o que fez com que carros e ônibus se espremessem mais ainda. Bom, a verdade é que, por três ou quatro vezes, fui apanhado pelo mesmo pensamento: essa coisa não parece tão segura quanto deveria ser.

A coisa toda funcionava assim: tábuas e ferragem eram encaixados de forma a que tudo ficasse relativamente estável. As estruturas se ferro se encaixavam umas às outras. Em seguida vinham as tábuas, grandes pedaços de madeira que eram deitados de uma ponta a outra e que deveriam servir de corredores e assentos para todos. Pois aí é que mora — ou morava — o perigo. Aquilo simplesmente chamava a atenção pela fragilidade aparente. Cabeça escorada na janela do ônibus, ficava pensando, “Bom, mas isso deve ser assim em qualquer lugar onde se fazem shows e comícios”. Não imagino que existam muitas alternativas ao ferro e madeira combinados. Naquele caso, o que dava ao projeto uma áurea levemente precária nem era mesmo os materiais usados, mas a amarração de tudo. O arremate, feito com arames, tornava o cenário estranhamente preocupante.

Essa sensação de estranheza me acompanhou por alguns dias até que esqueci tudo. Na mesma sexta-feira, passei na locadora de vídeos do bairro, apanhei cinco filmes e fui embora brincar o carnaval. Quando, na terça-feira, vi as imagens mostrando as mesmas tabuinhas e ferros que tinha me acostumado a colocar sob suspeita quatro ou cinco dias antes, o susto foi imenso. Felizmente, nenhuma vítima fatal. Fiquei surpreso com a fúria do apresentador de um programa policial. Enquanto xingava a prefeitura, as veias do pescoço pareciam bombear sangue suficiente para o Hemoce por três anos.


AS POSSILIBIDADES

Não vou tirar conclusões precipitadas. Quero apenas pensar alto a partir das informações que consegui reunir. Primeiro, parto das opções que os responsáveis pelo carnaval da cidade nos dão: sabotagem ou falha na montagem da estrutura. Se pensarmos bem, ambas são aterrorizantes. Atribuir à oposição política uma ação que poderia facilmente ter se encerrado com alguns mortos e muitos feridos é grave. Se se constatar alguma culpa ou não. No primeiro caso, comprova-se novamente até onde nossos políticos podem descer quando se trata de disputar o controle da máquina pública. No segundo, o quanto viciada está a política. Afinal, responsabilizar setores de diferentes colorações ideológicas antes mesmo que se faça uma perícia no local é algo arriscado, temeroso. Politicamente, pode ser desastroso. Em alguns casos, a suspeita parecia ter se convertido em convicção. Para eles, era tudo muito claro: haviam sido sabotados.

Em caso de culpa da empresa responsável pela construção do aparato que deveria suportar o peso dos foliões, a coisa é mais complicada ainda. É fácil perceber que a prefeitura tentará a todo custo minimizar o seu grau de culpa, delegando a terceiros uma atribuição que é sua: zelar pelo bem-estar da população de Fortaleza. Nesse sentido, as manobras já começaram. Acompanhem com atenção o desenrolar da história na televisão e jornais impressos.

Por fim, algumas perguntas: há quanto tempo não se reciclam os responsáveis por atestar o funcionamento de estruturas do Corpo de Bombeiros? Bom, se pude, de dentro do ônibus, desconfiar daquele engodo de ferro e madeira, por que homens e mulheres que se dedicam exclusivamente a isso permitiram que a arquibancada fosse aprovada? Que empresa fez a montagem da arquibancada, quanto a prefeitura pagou por isso? Que detalhes levaram a prefeitura de Fortaleza a desconfiar e espalhar aos quatro ventos que tudo poderia ter sido obra da oposição política?

Vou ficar esperando por respostas.

Aqui, a nota oficial da Prefeitura de Fortaleza. O laudo pericial deve ser divulgado em vinte dias. As policias civil e federal devem contribuir para a elucidação do caso.

Cem palavras (algum módulo)


O COLECIONADOR

Restos de pensamento, gozo, tédio. Restos de tarde, noite, madrugada. Da manhã inteira guardo pouco, quase nada. Do umbigo, apenas o suficiente para um belo café, um piquenique a sós nos fundos do quintal da última casa da rua numa terça-feira sem luz. Dos lábios, um beijo azedo, repuxado. Do abraço, a pressão leve nas costas, a ponta dos dedos, o olhar estranhamente sereno. Do bêbado, o desprendimento, o cambalear sem dono. Do irmão, fração de conselho. Da mãe, a existência (do pai a mesma coisa). Do miserável, o reflexo.

É o que faço: há décadas coleciono coisas imprestáveis.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Todos-todos?

O contador de visitas deste blog atingiu os quatro dígitos não sei quando. Na primeira vez que o vi, estava na casa das centenas, e o site apenas começava. Me parece estranho já termos aparecido 1066 vezes nos monitores de um número de pessoas talvez quase equivalente ao de visualizações, quando não há uma só postagem com mais de meia dúzia de comentários, geralmente emitidos pela própria equipe do Por que não te calas?!.

Uma das grandes diferenças que, dizem, espaços na Internet como este apresentam em relação aos meios de comunicação de massa tradicionais - rádio, TV, impressos - é a possibilidade de todos falarem para todos, de o emissor ouvir o receptor tanto quanto este o ouve, sem intermediários, sem filtros, sem atrasos. Na maioria dos blogs que visito, não vejo essa característica se manifestar tão fortemente quanto faz crer a teoria da relação todos-todos: todos são emissores e todos são receptores de fato? Ou será que continuamos com a cultura passiva de receber uma mensagem e guardar nossos pensamentos para nós mesmos, ignorando a possibilidade de fazê-los percorrer o caminho de volta, agregando uma nova mensagem à inicial?

Mudar esse estado de coisas é simples, questão de hábito. A quem interessa?

Notas melancólicas - Parte 4


Ao re-ouvi o disco Pink Moon (foto) de Nick Drake nessa manhã de carnaval, pude satisfazer-me um pouco com a minha própria melancolia. Na verdade, coube-me compartilhar meu desconforto com o do bardo britânico, amenizando-o. A voz sussurrada, as melodias intensas e os arranjos acústicos produzidos por Drake atestam a qualidade de artista de grande inteligência e criatividade e são elementos convidativos à contemplação do espírito.

Gravado de modo espontâneo e lançado em 1972, o disco é curto (são 11 faixas distribuídas em pouco mais de 25 minutos; média de dois minutos e meio por canção) e direto (sem grandes dispêndios, Drake utilizou-se apenas da voz e violão,) o que contrasta com os dois álbuns anteriores (Five Leaves Left e Byter Layter, respectivamente de 1969 e 1970) nas quais o compositor empregou uma banda para a gravação de suas músicas em estúdio. O contraste de postura de Drake não poderia ter tido resultado mais genial, embora o disco só fosse ser reconhecido após a morte do cantor. Um talento singular que percorreu uma trajetória, enquanto vivo, despercebida entre seus contemporâneos, Drake seria resgatado e elevado a ícone cult nos anos 90 por artistas como Belle and Sebastian e Elliot Smith.

Pink Moon é, de longe, o mais melancólico dos registros do compositor. Sem banda de apoio ou mesmo outro instrumentista para distrair-lhe a atenção, o compositor se quis sozinho no estúdio e assim o fez: ouve-se apenas a voz baixa do músico e o dedilhado altamente refinado de suas melodias ao violão. Faixa após faixa, Drake destila despretensiosamente no miserável ouvinte uma carga fulminante da mais elegante melancolia possível. Para isso, o compositor constrói um ambiente próprio para o desenvolvimento soturno de suas amarguras, levando-nos a embarcar em um mar de desespero.

As baladas lúgubres ao estilo folk sugerem ao ouvinte que não se levante da cama naquele dia. Quando apreciado em manhã de diversões, folias e folguedos populares, então, o disco se torna praticamente proibido. Mas não o é para este solitário carnavalesco que vos escreve, mensageiro de notas melancólicas, refém da solidão. Da metade para o fim do álbum, o ouvinte, por mais que lá fora faça um belo dia de sol, sente-se desolado. Canções como Which Will, Things Behind the Sun, Parasite, além da faixa que dá título ao disco, Pink Moon, obrigam-nos a caminhar por um vale de desesperança e angústia, ainda que esse andar seja repleto de belas melodias.

Tanta tristeza condensada logo teria seu desfecho trágico. Depois de gravar Pink Moon, a depressão que castigava Drake há alguns anos acentuou-se de maneira desenfreada. Em abril de 1972, o músico sofre um colapso nervoso que o deixaria internado em uma clínica psiquiátrica por várias semanas. Ao fim da internação, Drake, já tímido e introspectivo desde a infância, acentua os sinais de apatia e nunca mais tornaria a gravar coisa alguma. Em conversa com os poucos confidentes, dizia-se vazio, incapaz de sorrir ou chorar, impossibilitado de sentir qualquer sentimento ou expressar qualquer disposição afetiva para produzir música. Meses antes do fim, confidenciou a um amigo que não poderia mais lutar contra si mesmo, que desistira de tentar salvar-se e que nada o poderia proteger agora.

Nos últimos dias de vida, Drake evadiu-se do mundo. Trancafiou-se num quarto de hotel com enormes quantidades de LSD e maconha; drogas de preferência do compositor e das quais ele tomara conhecimento ainda na época em que era estudante de Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge. Escondendo-se dos amigos e dos parentes, evitando aparecer em público e de realizar apresentações ao vivo, Drake entraria na fase terminal da melancolia, de onde só sairia morto.

No dia 26 de novembro de 1974, Nick Drake suicidou-se na casa dos pais, onde teria regressado para uma última tentativa de escapar de si mesmo, com uma overdose de medicamentos antidepressivos. A mãe subira até o quarto de Drake a fim de acordá-lo para o café da manhã e o encontrara morto, atravessado na cama. No prato do som da vitrola do quarto, um disco com um dos concertos de Bach. Drake contava, então, apenas 26 anos de idade. Assim como os jovens poetas românticos do século dezenove que morriam precocemente antes do tempo, o músico sucumbiu à sua própria desesperança e cumpriu seu destino, nos legando obras de valor inestimável para os amantes da música refinada; o disco Pink Moon seria a despedida de Nick. Um maravilhoso adeus.

...

Obs.: Cogito a possibilidade de dar um tempo nas “Notas melancólicas”, pois não agüento mais deparar-me, todos os dias, com e-mails que, supostamente, deveriam chamar-me à vida. De “saia dessa, rapaz” a “não seja covarde para com a vida”, minha paciência dissipa-se em uma enchente de apoios imbecis à “magia da vida”. De acordo com as mensagens que me chegam aos borbotões, o sujeito racional é aquele que ama as “coisas da vida”, embora não seja especificado que coisas são essas, o que me leva a pensar que tais coisas podem ser, enfim, qualquer coisa; de uma unha encravada até um romance de Kafka. Para piorar, tais pessoas julgam que, ó Senhor, o suicídio é um ato covarde, como se a vida de todos esses que me escrevem não fossem elas, de cabo a rabo, uma coletânea de covardias. “Viver é um ato de bravura”, é o que me dizem, mas esquecem-se de dizer o seguinte, que lhes direi agora: levar a vida não se configura em ato de bravura coisa nenhuma. A maioria de nós não dispõe de qualquer inclinação de espírito para as "coisas da vida". Condenamos o suicídio e, como se não nos bastássemos, julgamos viver uma vida plena de bravura. Ora, meus senhores, somos todos um bando de covardes, suicidas ou não. Queremos é uma vida tranqüila para que, uma vez por ano, possamos doar 15 reais para o Criança Esperança e, assim, tocarmos a nossa vida em frente, um pouco mais medíocres. Aos que me escrevem condenado o suicídio ou incentivando-me à vida, digo-lhes: senhores, por Deus, poupem este escriba de tanta chatice. Se procuro evadir-se de mim ou mesmo do mundo, o faço relativamente consciente de suas supostas conseqüências, que, ao fim, só dizem respeito a mim mesmo.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ah, essa paixão por gatos...




Como se tirado de um conto fantástico, a amizade entre Guimarães Rosa e José J. Veiga surgiu de um fato intrigante. Dois gênios da ficção brasileira, responsáveis pela literatura mais pulsante de nossas letras no século XX.










Triiim. Triiiiim. Triiiiim.

–Alô?

– Dona Clérida?

– Sim, sou eu.

– Desculpe incomodar, eu me chamo Aracy. Meu gato não está bem e eu liguei pro doutor Nilo, mas ele não pode atender, disse que a senhora entendia tanto de gato quanto ele.

– Mas eu não sou veterinária.

– Ele disse que a senhora podia ajudar.

Aracy descreveu os sintomas, Clérida aconselhou por telefone, o gato estava bom em pouco tempo e as duas ficaram amigas. Aracy ligou de volta, muito agradecida, chamando Clérida para ver os gatos. Para o passeio, ela levou o marido. Na sala de estar, entre quitutes e palestras sobre felis catus, Aracy descortinou-se como Aracy Guimarães Rosa.

– É parente do escritor? – perguntou o marido de Clérida.

– Mulher dele!

Tempos depois, Guimarães Rosa (marido de Aracy) e José J. Veiga (marido de Clérida), dois dos maiores escritores brasileiros, pela sutil e refinada ironia do destino, encetaram uma conversa que os conduziria a uma amizade de mais de vinte anos. José J. Veiga só tem esse sonoro Jota no meio do nome porque Rosa, crente das forças da lua, entendido dos seres místicos e de numerologia, fez cálculos e cálculos com o nome completo de Veiga até chegar à conclusão:

– Põe José J. Veiga, vai ser bom pra você.

Os Cavalinhos de Platiplanto, publicado em 1959 e o primeiro livro de Veiga (que estreou na literatura tardiamente com 49 anos), foi um estouro. Até hoje a crítica considera uma de suas obras mais geniais. Lá já podemos ver um embrião do que seriam seus próximos romances: a alegoria, o fantástico, as situações absurdas e insólitas, a linguagem simples de quem fala fizeram de A Hora dos Ruminantes (1966), Sombras de Reis Barbudos (1972) e Aquele mundo de Vasabarros (1982) obras-primas de nossa ficção – embora poucos conheçam sequer que existiu José J. Veiga, um goiano de Corumbá de Goiás, funcionário público e escritor de doze livros imaginativos.

Em 1972, a delegação israelita sofreu um atentado nos Jogos Olímpicos de Munique, meu pai não conhecia minha mãe ainda e eu nem mesmo sonhava em nascer quando os ruminantes já haviam invadido tudo, em Manarairema de A Hora dos Ruminantes, e a Companhia de Melhoramentos espalhava o terror e a opressão na cidade de Lucas, o narrador de Sombras de Reis Barbudos. Não, caro leitor, as efabulações de Veiga não são coisa de criança – como muitos pensam – nem se restringem a uma alegoria sobre a política da época, que evidentemente acabou contaminando a leitura dos livros.

– Mas meu projeto de escrevê-los não era ficar na mera denúncia de um regime de opressão: se fosse, os livros ficariam datados quando o regime se exaurisse, como se exauriu (aliás, durou mais do que eu calculava). O meu projeto era mostrar situações mais profundas do que aquelas impostas por um governinho de uns generaizinhos cujos nomes a nação depressa esquecerá.

No ano de lançamento de Sombras, lamentava-se já o quinto ano da morte de Rosa.

– As pessoas não morrem, ficam encantadas – poetizou a famosíssima frase no discurso de posse da Academia Brasileira de Letras, que ele adiou durante quatro anos até não poder mais. – A gente morre é pra provar que viveu!

Não se sabe se as cartas, os búzios, as estrelas ou se as linhas de sua própria mão lhe falaram dos perigos contidos naquela cadeira que o imortalizaria. Mas exatos três dias depois de ter tomado posse com um discurso emocionado morreu sozinho em seu apartamento em Copacabana. Aracy tinha ido à missa; voltou quando não havia mais tempo de pedir socorro. A indicação ao Prêmio Nobel de 1967, feita por seus tradutores francês, alemães, italianos, foi cancelada por sua morte repentina.

Restava à mulher as histórias do marido, que ele lia em voz alta. José J. Veiga diz que Clérida e Aracy se debulharam em lágrimas com o pezinho estropiado de Miguilim. Talvez Guimarães Rosa tenha sido o Joyce brasileiro pelo trato com a linguagem; fez Riobaldo se apaixonar por Diadorim em Grande Sertão: Veredas (1956) e abalou as estruturas literárias do país. Diplomata nas letras e na profissão, na amizade Rosa gostava mesmo era de provocar, de discutir, contrariar. Um dia engrossava o coro das vozes que defendia Getúlio, outra hora achincalhava o estadista com toda a sorte de críticas.

– Que Getúlio nada! Getúlio é um safado! – ele disse para o amigo quando Veiga, certa vez, tentou rever a opinião que vinha preservando.

E Veiga só pode se lembrar de tudo com um sorriso nos lábios, na última entrevista que deu em vida no final da década de 1990. A velhice trouxe a ele, junto com as lembranças, o gosto de pequenos prazeres, de cachimbo e de fumar em casa com todo um ritual. Continuava com a perspicácia de sempre:

– Eu observo o comportamento da juventude, comparo com o que era no meu tempo... É sempre a mesma coisa passando-se em outra época, com outros ingredientes, mas, no fundo, é sempre o ser humano querendo amansar um pedaço do mundo para nele se instalar e ser o mais feliz possível.

Foram amigos por tanto tempo porque eram parecidos também na arte. Falavam de gente simples, do cantar do sertão, das noites em roda da fogueira, dos diabos e dos ungüentos medicinais, de pessoas que voam porque é o que lhes resta e ninguém poderá lhes tirar o poder de voar, de jagunços magicamente apaixonados num pedaço árido de chão, de meninos do interior e céus estrelados. Ah, Clérida, Aracy e essa paixão por gatos...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Notas melancólicas - Parte 3


A saudade talvez seja o mais melancólico dos sentimentos. O que é a saudade senão um desejo melancólico que nos faz sofrer com o que não se pode esquecer? O termo saudade vem, provavelmente, do latim solitatem, solidão. Do latim, o vocábulo modificou-se sucessivas vezes com o passar dos séculos. De soedade para soidade, daí para suidade, até a forma como o conhecemos hoje, saudade. Suave fumo do fogo do amor, mimosa paixão da alma, mal de que se gosta e um bem que se padece, diversas são as definições para a palavra saudade; não poucos poetas e compositores tentaram explicar, ao longo da história, o sentimento que, até onde se sabe, é universal, vez que pode ser identificado em todas as culturas e em todas as épocas históricas que tiveram o Homem como protagonista. Há referências ao termo na Bíblia, na cultura das tribos africanas e nas tradições dos indígenas brasileiros pré-Portugal.

Uma das mais simples (e paradoxalmente complexas) definições para o sentimento é atribuída ao poeta português Teixeira de Pascoaes (1877-1952). Para ele, saudade nada mais é do que o “desejo da coisa ou criatura amada, tornado dolorido pela ausência”. Sem dúvidas, parece que sentimos saudade daquilo de que gostamos e gostamos de ter saudades, sentimos prazer nisso. A saudade trás em si vários elementos da melancolia, como a inação e a contemplação e, não raro, a depressão.

Todavia, a mais bela definição para o termo, a referência cristalizada quando se pensa na palavra saudade, vêm mesmo de Camões (1524-1580). Para o poeta,

Não é logo a saudade,

Das terras onde nasceu

A carne, mas é do Céu

Daquela santa cidade

De onde esta alma descendeu

Quase tão bonita quanto a visão de Camões a acerca da saudade, é a do cantor e compositor norte-americano Bob Dylan (1941). Em 1974 o casamento de quase dez anos com sua então esposa, Sara Dylan, andava em crise e Sara resolve se divorciar do compositor. O processo de separação seria extremamente desgastante e, no decorrer do divórcio, Dylan foi tragado por uma tristeza patológica. Ainda em 1974, em apenas uma noite de insônia, munido de pena e violão, compôs para a esposa uma canção de amor autobiográfica relatando os anos de matrimônio, os cinco filhos pequenos do casal e, ainda, as férias passadas junto a Sara em Portugal. Na letra do poema, Dylan também pedia perdão por suas transgressões e, no último verso, ele, literalmente, chora para a mulher não ir embora. De nada adiantaria. Um ano depois, o processo de separação seria definitivamente concluído e Dylan cairia no alcoolismo. Sem mais delongas, senhores, deixar-vos-ei com a letra da canção, um dos mais belos hinos de saudade de toda a história da música popular.

Sara

I laid on a dune, I looked at the sky,
When the children were babies and played on the beach.
You came up behind me, I saw you go by,
You were always so close and still within reach.

Sara, Sara,
Whatever made you want to change your mind?
Sara, Sara,
So easy to look at, so hard to define.

I can still see them playin' with their pails in the sand,
They run to the water their buckets to fill.
I can still see the shells fallin' out of their hands
As they follow each other back up the hill.

Sara, Sara,
Sweet virgin angel, sweet love of my life,
Sara, Sara,
Radiant jewel, mystical wife.

Sleepin' in the woods by a fire in the night,
Drinkin' white rum in a Portugal bar,
Them playin' leapfrog and hearin' about Snow White,
You in the marketplace in Savanna-la-Mar.

Sara, Sara,
It's all so clear, I could never forget,
Sara, Sara,
Lovin' you is the one thing I'll never regret.

I can still hear the sounds of those Methodist bells,
I'd taken the cure and had just gotten through,
Stayin' up for days in the Chelsea Hotel,
Writin' "Sad-Eyed Lady of the Lowlands" for you.

Sara, Sara,
Wherever we travel we're never apart.
Sara, oh Sara,
Beautiful lady, so dear to my heart.

How did I meet you? I don't know.
A messenger sent me in a tropical storm.
You were there in the winter, moonlight on the snow
And on Lily Pond Lane when the weather was warm.

Sara, oh Sara,
Scorpio Sphinx in a calico dress,
Sara, Sara,
You must forgive me my unworthiness.

Now the beach is deserted except for some kelp
And a piece of an old ship that lies on the shore.
You always responded when I needed your help,
You gimme a map and a key to your door.

Sara, oh Sara,
Glamorous nymph with an arrow and bow,
Sara, oh Sara,
Don't ever leave me, don't ever go.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Notas melancólicas – Parte 2


Nascido por volta de 1440 em uma província pertencente aos Países Baixos, Josquin Desprès tornou-se um dos maiores compositores da sua época. Entoou suas canções melancólicas pela Itália e França, angariou sucesso ainda em vida ao ter sua obra reconhecida pelos seus contemporâneos e veio a morrer como um grande músico, aproximadamente no ano de 1521, deixando para a humanidade uma vasta e rica produção musical, entre hinos, motetos, salmos, canções e missas.

Há um trecho de uma de suas canções, intitulada Plaine de dueil et de melancolye, que sempre me tocou de forma particular, deixando-me, invariavelmente, em miserável estado de morbidez. Colocarei aqui primeiro o poema original e, logo abaixo, uma tradução possível.

Plaine de dueil et de melancolye
voyant mon mal qui tousjours multiplye,
et qu’en la fin plus ne le puis porter,
contraincte suis pour moy reconforter,
me rendre’a toy le surplus de ma vie

...

Cheio de luto e melancolia,
vendo meu mal sempre a crescer,
e vendo que até o seu fim não posso levá-lo,
sou forçado, para me reconfortar,
a dar-te o excesso de minha vida

domingo, 27 de janeiro de 2008


- Eu vou embora.

Fiquei sentada no jardim esperando. A cara bem séria. Minha dignidade fora ofendida. Que viessem me pedir que por favor não fosse, não faça isso, a gente vai sentir tanta falta. Meu pai perguntou rindo pra onde é que eu ia. Minha mãe disse com indiferença medida: vai. E eu fiquei magoada e triste o dia todo. Não pude ir. Tive que ficar, com o meu orgulho ferido e a frustração de reconhecer que eles tinham razão - embora eu nem entendesse isso direito. Mas sentia que minha ameaça não tinha valido nada - então eles me deixariam ir embora mesmo, se eu quisesse?

Talvez minha irmã mais velha tivesse feito a mesma cena um dia, por isso eles nem ligaram quando foi a minha vez. Como tantas outras situações na minha vida infantil, não era novidade pros meus pais. Eles já tinham se acostumado a tanta coisa; eu acostumei com isso. E a mesma ceninha deve ter acontecido em tantas outras famílias em que os pais aprenderam em algum lugar que não se deve dar muita atenção quando as crianças ameaçam sair de casa. É só ficar de olho no portão.

Quando eu era criança um dia eu quis ir embora. Hoje não lembro por que razão, devia ter então uns seis anos. Algum aborrecimento pequeno, mas que na época me deu a impressão de merecer uma reação igualmente grave. Agora que tenho vinte anos, falar em sair de casa soa como uma novidade ruim. Numa conversa despretensiosa com a minha mãe, descobri que a minha intenção de morar sozinha antes de me juntar é para ela um absurdo. Não entende por que alguém sairia do conforto da casa dos pais pra gastar dinheiro morando só, enquanto poderia estar economizando pra se estabelecer bem.

Não é tão complicado. Eu discordo dos meus pais e não quero brigar. Já tentei métodos diferentes, já conversei, já ignorei, já teimei; não mudou muita coisa. Eu penso pra cima e eles pensam pra baixo, ou outra comparação simplista que demonstre nossa diferença de princípios em alguns pontos. Pontos importantes.

Daí que eu tenho vontade de sair de casa, e não é pra ver meus pais me pedindo por favor que fique, não faça isso, a gente vai sentir tanta falta. Aliás, preferia que não fizessem essa cena. Pra gente ver como em quinze ou vinte anos a situação muda...

Por que ainda se ouve o eco de velhas reivindicações

A greve de professores da UECE dura 2 meses, mas a sensação é que faz bem mais tempo que as aulas estão suspensas na universidade. Talvez seja porque as paralisações se sucedem desde 2005.

Naquele ano, como relata a professora Vania Vasconcelos, do Departamento de Letras da UECE, o movimento "teve como resultado a contratação de novos professores para os quadros da Instituição, cujos cursos viviam praticamente de contratações temporárias". Em 2006, o foco foi o reajuste salarial, além de melhorias nas instalações. Aí, criaram-se as raízes da presente greve: acreditando na promessa do governador Cid Gomes de discutir o Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) logo no primeiro mês de gestão, os professores encerraram a greve de 2006. Cid Gomes tomou posse, emplacou o hit do Ronda do Quarteirão e recorreu na justiça contra decisão do STF, pra adiar indefinidamente o reajuste salarial do PCCV. Temos de convir que até que os professores foram pacientes...

Mas paciência tem limite, principalmente quando o Governo Estadual faz uso cada vez mais recorrente de ferramentas legais porém duvidosas para tolher as reivindicações. Quarta passada, a greve foi declarada ilegal, com multa diária de R$500 pro sindicato e tudo, se as aulas não forem retomadas amanhã, sem que se tenha chegado a um consenso quanto ao reajuste salarial. Não há nem mesmo a garantia de que esse reajuste vai acontecer - seja ao longo de 3 anos, como demandam os professores, seja em 4, como talvez conceda Cid.

Por que tanta má vontade? Dizer que essa greve é corporativista não cola: além do aumento pros professores, existem reivindicações que contemplam a universidade e sua relação com a comunidade como um todo, como a construção do hospital veterinário, o incremento de políticas de assistência estudantil, melhorias na estrutura física dos campi da capital e do interior. Ninguém gosta dos atrasos no calendário letivo, porém a questão é muito maior. "O que afeta a qualidade de ensino não é a desarrumação do calendário, mas sim a evasão de professores, a falta de bibliotecas decentes, de laboratórios, de incentivo à pesquisa...", lembra a professora Vania.

Se a situação não mudar nada com mais essa greve, é muito provável que venha outra em 2008. E por que não? Empurrar com a barriga é que não dá. Ou será que é melhor ter aula de qualquer jeito, sem certeza de aproveitamento?

Os dragões nos perseguem


Meu irmão está longe. Não acredito em mais nada. Me fecho ainda mais intensamente na minha armadura. (Pierre-François em Epiléptico)


Não costumo ler HQs. Nem quando era criança tinha paciência pra histórias em quadrinhos. No geral, achava tudo um pouco estúpido. Menos pela deslumbrante harmonia de corpos bem-talhados do que pelos muitos buracos que via nos roteiros de títulos como X-men, Wolverine, Super-homem e tantos outros. Não exatamente buracos, mas aspectos que me faziam achar as motivações dos heróis um tanto inconsistentes e as batalhas intermitentes sem motivo que as pudesse justificar. Desse modo, passei grande parte da infância e adolescência longe do universo dos super-heróis mais apreciados pelos colegas de mesma idade e condição social. Até tentei me obrigar a gostar de revistas, mas não nunca fui além de dois números de Spawn e dos três da versão 2099 dos mutantes mais famosos do mundo.

Acabo de ler Epiléptico (Conrad Editora, 2007), de David B. É uma revista em quadrinhos, sim. Uma HQ, portanto. Uma história contada por meio de imagens e balõezinhos contendo as falas das personagens. É em preto e branco, não tem as cores berrantes e os efeitos que somente a computação gráfica consegue imprimir a muitas páginas laminadas das revistas mais vendidas em bancas de todo o mundo. Os desenhos não são perfeitos, os personagens não têm queixos quadrados, cabelos esvoaçantes, pernas e braços cujos músculos quase chegam a se desprender do próprio corpo. Seus olhos não disparam raios nem eles podem voar. Os heróis de Epiléptico não exibem quaisquer anomalias que os tornem diferentes. São como você e eu. Mas não foi exatamente por isso que, ao fim das cento e setenta e três páginas do livro, passei a considerá-lo uma das melhores coisas que já li até hoje. Pra falar a verdade, não sei por que a história do francês David B., pseudônimo de Pierre-François Beauchard, me fez dar giros em volta de mim mesmo. A exemplo de Jean-Christophe, o epiléptico do título, estou perdido e só me resta um dragão chinês como companheiro.

Antes de Epiléptico, tinha lido V de Vingança, de Alan Moore. Boa revista, sim. Infinitamente superior ao filme. Antes dela, nem lembro. Acho que foram cinco ou seis números de Watchmen, do mesmo Moore. Se me esforçar bastante, chego, agora, à série que narra de forma dramática a morte do Homem de Aço. Li aos dezessete anos. E aqui se finda o histórico completo de minhas experiências mais ricas com quadrinhos. Não sou, portanto, um grande entendedor do assunto. E é como um quase leigo — acostumado apenas ao universo da literatura e do cinema — que repito: David B. é uma das melhores coisas que já li até hoje.

Seus desenhos são alucinados. Seu senso de humor é fantástico. Ele tem uma escrita literária. Constrói situações que fazem rir e chorar. A história que conta — a sua própria — é dramática. Ele trata de um período muito caro a qualquer um de nós: a infância. Faz isso de forma primorosa. Não é piegas nem saudosista. É implacável com todos. Por isso Joe Sacco o considera um dos melhores quadrinhistas da atualidade. Tem sacadas geniais. Ele é GENIAL. Não tenho medo de dizer isso. David B. é GENIAL.

Sei que ainda é muito cedo pra afirmar uma coisa destas, mas lá vai: tenho a impressão de que minha vida seria um pouco diferente se não tivesse acabado de ler Epiléptico, de David B. Como são dois ou três livros, já nem lembro, estou pensando em comprar o segundo amanhã mesmo e devorá-lo sem dó. Se você é dos que torcem o nariz pros quadrinhos, David B., com sua maestria, certamente deve estar cagando pra isso.


Epiléptico (Volume I, Conrad Editora), de David B. Preço: quarenta reais.

sábado, 26 de janeiro de 2008

O furor que vem do céu

Reação retardada... Às vezes acontece.

Viram que chuva? Claro que viram. Ao menos quem estava aqui na cidade. Quase morria. Caiu um raio ao lado do ônibus, e por muito pouco escapei de virar churrasco em plena tempestade. Viraria mesmo? Dizem que dentro do carro não existe perigo, os pneus nos isolam de qualquer descarga elétrica.

Por falar nisso, aquilo foi mesmo tempestade? Tenho minhas dúvidas. Tempestade cheira a exagero, foi mais uma boa chuva com ventos e raios e trovões e muita gente correndo e se escondendo sob as marquises das lojas e outro tanto escorregando e patinando nas calçadas sem saber ao certo o que fazer. Mas os jornais falaram em tempestade, sim. Fiquei querendo ouvir alguém da Funceme, algum geógrafo. Um estudioso que dissesse: “Sim, foi mesmo uma autêntica tempestade”. Agora que as águas já foram drenadas e correram só Deus sabe pra onde, nada disso tem importância. Se foi temporal, chuvão ou tempestade, muito menos.

Bom, no pior momento do pau-d’água estava muito confortável num ônibus com cerca de dez pessoas, voltando pra casa. Achava que os estragos já haviam sido feitos pela chuva que tinha começado duas horas antes e que, naquele instante, parecia querer se acalmar ou simplesmente dar um tempo. Quando o estrondo fez todo mundo dar um salto de suas cadeiras, se entreolhar rapidamente e, em seguida, cair na risada. Fui o único a continuar assustado com aquilo, o restante do grupo se esbaldava, cada um contando ao colega de assento ou mesmo ao que estivesse mais próximo o que diabos estava fazendo ou sobre o que havia estado pensando quando a merda do raio e depois o trovão nos provaram que um dia a coisa será mesmo séria. Nesse dia, a gente não vai ter pra onde correr nem motivos pra rir. Fiquei mesmo impressionado com o poder bélico de um simples fenômeno natural.

E também pensando em ondas gigantes e meteoros e abalos sísmicos e noutras coisas tão ou mais catastróficas que essas, como um ano eleitoral pela frente e o cancioneiro baiano virando jingle de campanha etc. Ainda bem que o pessoal da Marvel e da DC Comics está sempre vigilante, podem nos salvar de todo e qualquer mal.

Até a próxima chuva. Ou tempestade, como queiram.