segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal amarelo...


Peço desculpas: vou comentar aqui um filme já bastante discutido, mas que somente ontem tive a oportunidade de conhecer. Não se trata de uma resenha jornalística. É mais um comentário despretensioso. Acheguem-se.

O filme é Amarelo Manga (2002), do pernambucano Claudio Assis. Antes dele, tinha assistido, no sábado, Dogville, de Lars Von Trier. Não preciso dizer que os dois filmes são da pesada. Ambos mexeram comigo, portanto. O primeiro bem menos que o segundo e este bem mais que tantos outros até então vistos.

Entretanto, devo confessar: esperava mais de Amarelo Manga. Muito mais. Muita zoada em torno da obra, muitos prêmios acumulados, muita badalação – pra um filme que é só mediano. Diziam dele: tem cenas fortes, é escatológico. Preparei o estômago, portanto. Ao longo de uma hora e quarenta minutos, só fiquei enjoado ao ver uma vaca sendo abatida. Sangue à vontade sempre embrulha o estômago da gente. Além disso, nada. Uma buceta não me assusta – não mais. Catadores de lixo, vendedores ambulantes, putas, cafetões e cafetinas, traficantes – embora muitos sequer figurem no filme –, idem. A mesma coisa com a mulher gorda esfregando o aparelho de aerosol na vagina. Assis, pra mim, amarelou. Ou foi a crítica que sucumbiu ao bafafá de Amarelo Manga? Quem criou a áurea: o filme ou a crítica especializada?

Escrevo sem ter lido muitas delas, o que é bom. De qualquer forma, reitero: tinha escutado falar muita coisa do filme, que era isso, que era aquilo. Não é. Tem personagens mal-acabados – o que dizer do padre (não lembro o nome) e do pirado Isaac, interpretado por Jonas Bloch? Que o último beira o ridículo? Sua tara por sangue ou cadáveres é infantil, risonha. Quanto ao padre, é óbvio que ele está perdido no filme. Não se encontra pro santo homem uma função definida além da que o obriga a sair por ruas apertadas de um bairro pobre pensando alto. Sua descrença ou mesmo sua crença subversiva é igualmente cômica. Sendo justo com o personagem, diria que ele é subutilizado. Isaac, ao contrário, é apenas caricato.

Parênteses: Amarelo Manga chega a ser didático, sim, e ser didático quase sempre é um primeiro passo para que tudo termine mal. Me refiro à cena em que o próprio Assis sussurra para Kika (Dira Paes): “O pudor é a forma mais inteligente de perversão”. Ou seja, o desbotado Não se reprima! é a mensagem.

Falo de dois personagens centrais na trama de Amarelo Manga. Mas há outras coisas que, no filme, ficam inteiramente soltas, esfiapadas. A cena em que Kika (crente fervorosa), a esposa traída do açougueiro Wellington Kanibal (Chico Dias) – Claudio gosta dos tipos “imundos” –, enfia um cabo de escova de pentear cabelos no cu de Isaac (necrófilo) é de uma gratuitade sem tamanho. Qual o sentido do gesto? O que há por trás dele? Afirmar que todos somos, embora queiramos esconder, um bando de pervertidos? Ou simplesmente dizer que enfiar um cabo de escova no cu de alguém é algo normal? Nos dois casos, a cena fica devendo. No primeiro por se aproximar do clichê. Afinal, existem pencas de filmes que buscaram a mesma coisa e melhor. No segundo caso, a coisa piora: o clichê é mais inaceitável ainda.

Algumas coisas – detalhes – nos indicam as intenções de Claudio Assis em Amarelo Manga. Talvez ele pretendesse mostrar o imundo da realidade. Não estou falando somente de miséria, mas de algo que se alimenta dela e vai além, algo que floresce na lama, que apodrece sob as nossas vistas, que sucumbe às vontades primitivas de comer e foder (O ser humano é estômago e sexo, sentencia o filme). Talvez essa proposta possa ser expandida para um grande leque de filmes nacionais na atualidade. Talvez essa proposta, nobre em teoria, esteja cansando, sim, ou já tenha vindo ao mundo cansada mesmo. Ou natimorta, ninguém sabe.

Há outra coisa sobre a qual fiquei me perguntando: quem é o protagonista de Amarelo Manga? Não há. Digo, essa imundície de que falei ocupa quase todas as atenções de Assis e se converte, se quisermos, em protagonista da história. O diretor parece querer provar a tese: é na sarjeta, nos becos das favelas, nos casebres periféricos, nos bares pestilentos que ocupam as esquinas dos bairros pobres que nossas taras assumem a sua forma definitiva. Assis comanda os seus personagens com mão de ferro. Ele os envia ao campo de batalha com um dever explícito: comportem-se feito animais.

Que venha Baixio das Bestas!

Um comentário:

Yuri Leonardo disse...

Me interessei pelo filme, Henrique.. essas experiências com extremos ou com o escatológico dão possibilidade de uma mudança no olhar das nossas relações com as outras pessoas.